Morreu na madrugada desta segunda-feira (13 de julho de 2026), aos 60 anos, o ex-prefeito de Campo Grande Alcides Jesus Peralta Bernal. Segundo a Santa Casa, ele faleceu às 0h35, durante o terceiro cateterismo de urgência, após um novo infarto e três tentativas de reanimação. Estava internado desde a semana anterior e preso preventivamente desde março. A Câmara Municipal decretou três dias de luto oficial.
A trajetória de Bernal, ao longo dos últimos anos, ganhou contornos de enredo de novela — da ascensão improvável ao desfecho trágico.
Da rádio à Prefeitura: a ascensão do azarão
Antes da política, Bernal era uma voz conhecida: foram 18 anos como radialista na FM Cidade. Advogado, elegeu-se vereador por dois mandatos e, em 2010, deputado estadual.
Em 2012, entrou na disputa pela Prefeitura de Campo Grande como puro “azarão” — sem grandes alianças, com chapa pura, contra outros seis adversários e diante da hegemonia do então PMDB. Contra o prognóstico, venceu no segundo turno com 62,55% dos votos (270.927), derrotando Edson Giroto (MDB), e tornou-se o 62º prefeito da capital.
O primeiro prefeito cassado da história de Campo Grande
O mandato, porém, foi conturbado. Em 12 de março de 2014, Bernal tornou-se o primeiro prefeito cassado pela Câmara Municipal na história de Campo Grande, por 23 votos a 6. A cassação envolveu acusações de nove infrações político-administrativas ligadas a contratos emergenciais firmados sem licitação.
Embora tivesse vencido nas urnas, Bernal nunca conseguiu maioria na Câmara, dominada por parlamentares ligados à oposição.
A volta ao cargo e a investigação sobre a cassação
O caso teve uma reviravolta. Em agosto de 2015, Bernal retornou à Prefeitura, após a Operação Coffee Break afastar o então prefeito Gilmar Olarte (que era seu vice). Segundo o Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado), havia indícios de que vereadores, empresários e articuladores teriam formado um esquema para “comprar” a cassação do prefeito eleito, com suspeitas de corrupção ativa, corrupção passiva e associação criminosa.
Bernal concluiu o mandato, mas não conseguiu se reeleger em 2016, sendo derrotado por Marquinhos Trad (PV). Nos anos seguintes, afastou-se do protagonismo político.
A queda: o crime de março de 2026
Em 24 de março de 2026, Bernal voltou ao noticiário — desta vez, policial. A Caixa Econômica Federal havia retomado, por dívida de financiamento, um imóvel que pertencia a ele. Quando o auditor fiscal aposentado Roberto Carlos Mazzini, de 61 anos, foi ao local para tomar posse da casa, Bernal chegou e o matou com dois disparos. O ex-prefeito entregou-se à polícia, e a prisão preventiva foi decretada no dia seguinte.
Preso, Bernal chegou a infartar e passou por cirurgia cardíaca. Da 1ª instância ao STJ, teve cinco pedidos de prisão domiciliar negados. Como o processo não chegou a julgamento, ele morreu sem ter sido condenado.
Os últimos dias e a morte
Na semana anterior à morte, Bernal foi internado duas vezes por problemas cardíacos. Recebeu alta na sexta-feira (10) e voltou ao Presídio Militar Estadual, mas passou mal e retornou à Santa Casa no sábado (11), em estado grave. A condição se agravou até o novo infarto na madrugada de segunda-feira. No cateterismo, a equipe médica constatou trombose nos stents das artérias do coração; apesar das manobras, não houve recuperação.
Bernal morreu na véspera de completar 61 anos. Deixa uma trajetória que, em pouco mais de uma década, atravessou o auge do poder municipal e terminou na prisão.
